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Dexter lança releitura da música “Voz Ativa”, dos Racionais MC’s

Dexter lança releitura da música "Voz Ativa", dos Racionais MC’s
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Nova versão da obra conta com a presença dos rappers Djonga e Coruja BC1, confira o vídeo clipe de “Voz Ativa 2020”.

Dexter lançou “Voz Ativa 2020”, nova versão do som dos Racionais MC’s. A obra tem a voz de Djonga e Coruja BC1, músicos de sucesso da nova geração do Hip Hop. As batidas do som foram construídas pela dupla KL Jay e Dj Will (Pai e Filho).

Sou muito pelo amor nas coisas. Regravar o melhor grupo do país, o melhor letrista também. Não podia fazer isso sozinho. Me preocupo muito com o futuro, com o que está acontecendo com aquilo que veio da periferia e é nosso. Isso me despertou o interesse em resgatar algo do passado que pudesse conversar com as pessoas sobre a responsabilidade de ser e fazer.”, conta Dexter.

O músico já lançou cinco álbuns e dois DVDs em 20 anos de carreira no hip hop. Fundador do grupo 509-E, em 2005 ganhou o prêmio Hutúz, a maior honraria para álbuns de rap, com o disco solo “Exilado Sim, Preso Não”. 

A música “Voz Ativa”, originalmente lançada em 1992, aborda temas como racismo, violência policial, movimento negro e juventude negra. “Essa música retrata tudo o que aconteceu em 1992 e agora está acontecendo de novo. Mas que na verdade, sempre aconteceu também”, explica Dexter.

A versão 2020 da canção abre uma nova fronteira para o rap brasileiro com a união de gerações. Djonga e Coruja, integrantes da nova versão da música, não eram nascidos quando os Racionais MCs lançaram a faixa pela primeira vez. Ambos, contudo, foram profundamente influenciados por ela.

Foi uma alegria muito grande e também um pesar. Se a gente estivesse falando sobre isso [racismo] só para revisitar a obra de uma forma totalmente artística, beleza. A gente tá cantando porque é uma música que a gente gosta e tocou o nosso coração. Mas tudo o que tem na letra continua acontecendo e isso traz um pesar”, afirma Djonga

O rapper Coruja ressalta a importância do diálogo intergeracional no rap e a potência desses encontros para inspirar novas letras. “Eu agradeço a oportunidade de poder gravar um clássico, de ser chamado pelos meus professores. Qualquer coisa que eu diga não vai ser o suficiente para expressar o que eles representam na minha vida. Dexter e Brown escreveram páginas muito bonitas na história do rap. Foram páginas que eu li muito. Sempre que eu vou escrever algo, tento olhar para essas páginas que me inspiraram”, diz Coruja.

A letra de “Voz Ativa” foi feita sob influência da luta negra por direitos básicos de sobrevivência e descreve um momento importante na história do rap. O ativista norte-americano Malcolm X é citado na letra e foi fonte de inspiração para a escrita dos versos.

“Eu estava lendo os textos do Malcolm X naquela época e me identificava bastante com o que ele escreveu. A letra sou eu conversando com ele no livro, dizendo que aqui no Brasil as coisas estavam do mesmo jeito, mas que agora o negro tinha voz ativa e disposição de lutar”, conta Mano Brown, autor da letra e vocalista dos Racionais MC’s.

Na mesma época, o vocalista dos Racionais MC’s tinha feito contato com o MNU (Movimento Negro Unificado), grupo político organizado contra o racismo desde 1978. “Foi o encontro de gerações. Já era esse racismo institucionalizado que tem hoje. Tinha gente que defendia que não tinha racismo, que aqui era o país da miscigenação, da cordialidade das raças. Nesse clima eu fiz a música”, lembra Brown.

Foto: Pedro Barros

A vontade de regravar a música, e construir o clipe, foi impulsionada pelas recentes manifestações antirracistas em todo o mundo, em especial no Brasil e nos EUA, quando pessoas negras como João Pedro Mattos e George Floyd foram assassinadas por policiais militares. A letra é uma das mais críticas ao racismo e de exaltação à resistência negra dos Racionais MC’s.

“Desde a criação do código penal, em 1890, no Brasil foi tudo dividido entre a burguesia e os pobres, que eram os pretos. E nunca mudou. A música Voz Ativa é o nosso olhar sobre a vida dos negros no país”, comenta KL Jay.

O DJ guardou na memória o clima do estúdio na época da gravação da música há quase 30 anos. “Me lembro da gravação de 1992. A gente não tinha recursos e nem equipamentos. Não tinham técnicos especializados em rap como temos hoje. A gente chegou no estúdio com as idéias. Era abrir a mata. Ficamos de seis a sete horas gravando”, recorda Jay.

Assista abaixo ao vídeo clipe de “Voz Ativa 2020”.

Dirigido por João Wainer, Mailson Soares e Ricardo Souza, o videoclipe resgata o clima das produções audiovisuais do rap americano da década de 1990 com uma criativa edição de cortes e efeitos, repetindo a mistura de uma estética clássica e moderna. 

“Trabalho na indústria do audiovisual há dez anos e o Voz Ativa 2020 é uma realização pra mim tanto profissional quanto pessoal”, avalia Mailson Soares, que mora em Los Angeles e já trabalhou com Snoop Dogg e Quincy Jones. “Eu nasci em 1992, no Capão Redondo, e o rap é uma grande referência para mim”, acrescenta o diretor, que também assina a fotografia do videoclipe.

É uma grande satisfação participar deste projeto. Conheço o Dexter desde 1999. Montamos uma equipe muito engajada e de confiança. Já é um videoclipe histórico por tudo o que ele representa”, pontua João Wainer, que também é documentarista. 

A realização do videoclipe e do mini-documentário sobre o encontro histórico é da produtora Sindicato Paralelo, dos irmãos João Wainer e Roberto T. Oliveira. A produtora estava em silêncio desde 2009, quando lançou o doc “Pixo”. A expectativa dos produtores é alta com o clipe e a música por conta da participação de ícones da cultura hip hop de diferentes gerações.

A locação: Pião na favela

Algumas das cenas do videoclipe foram gravadas na Favela da Felicidade, no jardim São Luiz, extremo Sul da cidade de São Paulo, localidade encravada entre o Centro Empresarial, o rio Pinheiros e o bairro de classe média Santo Amaro. A Favela da Felicidade existe há cerca de 50 anos.

Em 2015, o grafiteiro Zizi Grafitti fez uma ação cultural para discutir as opções de lazer na quebrada. Dois anos depois, ele montou o “Felicinema”, com exibição de filmes e debates em várias áreas da favela.

Atualmente, o artista acompanha as obras no espaço cultural Felicidade, com a proposta de desenvolver oficinas de arte, sarau, cinema e literatura. “Vai ser um espaço múltiplo de cultura para crianças e adultos. Não adianta colocar um espaço de cultura dentro do território sem se comunicar com os adultos que são as grandes referências das crianças”, diz Zizi, o idealizador do projeto.

As opções de lazer para a população na região do jardim São Luiz estão localizadas na parte do “asfalto”, o que ainda em 2020 cria um distanciamento para quem mora na favela. “Se tratando de asfalto, as coisas acontecem mais. Isso é algo que me incomoda. Existe uma questão cultural da galera da favela às vezes não sair, tem um bloqueio. A gente precisa ir nesses territórios mais precarizados do que o asfalto”, diz Zizi.

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